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Nomadismo e a educação dos filhos

Praticar o nomadismo sozinho ou em casal é invejável para algumas pessoas, repulsivo à alguns, talvez algo excêntrico para outras, mas sempre dentro de uma certa normalidade casual para quem vê de fora, o crescimento desse “novo” modo de vida está acontecendo no mundo todo. 

 

Porém,  acredito que a cobrança da sociedade “padrão” se torne diferente quando você viaja em família. E uma das primeiras perguntas que você vai ouvir é: – e a escola das crianças? E a vida social dos pequenos? Enfim, é sobre estas temáticas que discorreremos neste episódio.

EScute esse episódio

A nossa família

Somos uma família composta por cinco pessoas, sendo um casal e três filhos. Nosso primeiro filho veio quando ainda éramos adolescentes, hoje ele conta com 21 anos e, como todo primeiro filho, passou junto conosco os aprendizados, medos e receios primários que envolvem a maternidade/paternidade. No início, quando ainda éramos muito novos, para a criação e educação do vinícius, nos baseamos bastante naquilo que os nossos pais diziam e faziam, e posso dizer que tivemos muita sorte neste ponto, pois tanto os meus pais quanto os pais do Daniel são pessoas bastante conscientes e abertos a novas possibilidades.

O filho mais velho

Mesmo que na gravidez e infância do Vini, nós ainda não estivéssemos com olhos abertos a novas possibilidades de criação além das impostas pela sociedade, e mesmo que o fluxo normal da girasse em torno de outras ideias, sempre buscamos alterar as rotas que não fazem sentidos à nós,

E, foi assim que ainda na infância dele eu me tornei vegetariana e consequentemente, ele ainda pequeno deixou de consumir animais na maior parte do tempo, na adolescência tivemos a oportunidade de o colocarmos em um colégio Waldorf, o que expandiu muito a nossa consciência e a dele, e agora na vida adulta, ele sofre a pressão social para que se faça uma faculdade e a nossa é para que ele encontre os caminhos próprios que o façam feliz e realizado, sem ou com faculdade. óbvio que ainda não sabemos se estamos no caminho certo, afinal ele sempre sofrerá com o fato de ser o nosso primeiro filho e passará pelos erros primários de pais inexperientes de filho agora, adulto. Sinto que ele está se saindo bem com as próprias descobertas, mas sinto que talvez a responsabilidade de nadar contra a correnteza às vezes gera uma certa ansiedade

As meninas

As meninas, Vallentina e Violleta, vieram dez anos depois, a Valle hoje tem 10 anos e a Violleta 8. Ambas nasceram ao menos uma década depois do Vinicius, fato que já nos fizeram ser outros pai e mãe. Bem mais maduros, questionadores e decididos.

Além disso, já éramos mais imponderados para tomar nossas próprias decisões e com força o suficiente para nadar contra a correnteza. Assim, quando me peguei grávida da Valle uma das primeiras decisões que tive foi a de que ela nasceria de parto normal, e na sequência, buscando bastante sobre o assunto, cheguei a possibilidade do parto domiciliar e assim foi.

Vallentina

A Valle nasceu em casa após um longo e lindo parto domiciliar. Graças ao apoio do Pediatra Caca e da obstetra/parteira Betina.


A Valle, teve cama compartilhada, amamentação livre demanda, sling o dia todo, utilizou fralda de pano, colo o quanto quis, criação com apego, enfim, todos os questionamentos possíveis quanto a criação de filhos/bebês foram feitos e aos poucos fomos criando-a ao nosso próprio estilo.


Violeta


Violleta chegou 1 ano e meio após a Valle e daí os questionamentos não precisaram ser tão grandes e as descobertas do que queríamos já haviam sido feitas anteriormente, sendo assim, Violleta nasceu de um rápido e delicioso parto domiciliar, sob os cuidados dos mesmos profissionais, Betina e Cacá. Ela também teve as mesmas fases resolvidas desta forma menos tradicional. Com direito a festinhas nada suntuosas realizadas com doces e bolos de frutas, cercado a atividades artísticas, sempre no chão de nossa casa, nas quais as mesas de bolo eram baixinhas na altura de bebês para que se servissem à vontade, enfeitadas quase sempre de desenhos e penduricalhos que nós mesmos fazíamos.

As dúvidas sobre a educação

Foi então, que chegaram as dúvidas sobre as escolas e daí os questionamentos vieram com mais força, logo eu, extremamente escolarizada, em escolas tradicionais e cursando um doutorado, ou seja, já havia passado por todos os ritos escolares, graduação, pós graduação, especialização, mestrado doutorado, me vi questionando os mecanismos de ensino e fui me aprofundar quanto aos conceitos de processos de aprendizagem e aquisição de conhecimentos.

Já o Daniel nunca gostou da escola, não gostava do sistema e frequentou por pura obrigação. Assim que teve a oportunidade não pensou em hipótese nenhuma em continuar adquirindo conhecimento através de instituições de ensino formais e foi sempre aprendendo o que sabe, na vida e com a vida, então pra ele já foi bem mais claro o fato de que a escola e o modelo tradicional não faziam muito sentido para nós.

Desta forma, as meninas nunca frequentaram nenhuma escola tradicional. Foram um pouco na Waldorf, mas logo conhecemos o método Montessoriano e a desescolarização.


Através do Grupo Orion do Equador fomos nos aprofundando nestas questões e nos emponderando para que fizéssemos esta transição para a desescolarização de forma mais tranquila. Aos poucos, passamos a praticar observação ativa nos filhos, a escuta interna diante das próprias aflições e incertezas e os ouvidos atentos aos barulhos e dizeres daqueles serzinhos em desenvolvimento.

Quando elas tinham 6/7 anos mudamos para Ilhabela e naquela época o trabalho estava exigindo muito de nosso tempo, pois foi quando tivemos, de fato que nos dedicar ao desenvolvimento da administração remota da empresa, foi então que, começamos a buscar lugares que pudessem nos ajudar com os “cuidados” das meninas para que pudéssemos dedicar parte do tempo somente aos negócios.

O Instituto Tiê

E, pela conspiração do Universo e a graça das Deusas, conhecemos o Instituto Tiê e seus educadores. Foi no encontro com este grupo que eu novamente ressignifiquei meus conceitos de escola.


Até conhecer o Tiê, nossa ideia era a de que não aceitaríamos de novo uma escola/instituição em nossas vidas, porém os educadores do Tiê, pais e educandos nos trouxeram uma nova possibilidade: a de comunidade, aprendizagem livre, companheirismo, amor e empatia unida a educação das crianças.

Não consigo em palavras, aqui exprimir o quanto aprendemos enquanto país, diante da convivência com as pessoas do Tiê. Ainda hoje uma de nossas grandes dores ao sair pelo mundo foi a de deixar o Tiê lá na Ilha, apesar é claro de terem ficado em nossos corações.

A escola livre

Com o Tiê entendemos que existe uma escola dos nossos sonhos. Na qual a criança tem a possibilidade de aprender através de projetos e através das vivências no cotidiano. A escola livre navega em direção a autonomia do educando bem como a individualização dos processos de aprendizagem. A escola livre não ignora os processos internos e subjetivos de cada ser e entende que as emoções, durante a aquisição de conhecimento, são tão importantes quanto os números, letras, textos, frases e contas.

Worldschooling


Hoje em dia, estamos nos aprofundando nos conceitos de world schooling, as meninas fazem as aulas que elas querem, de forma remota, ora se aperfeiçoam na matemática, ora na história, ora no português, de acordo com que sentem interesse e necessidade.

No entanto, acreditamos que o ato de viajar tem sido uma grande aprendizagem. De forma prática aprendem o mapa, o cálculo de distância e fazem as contas dos gastos com as diferentes atividades do dia a dia. Além disso, confeccionam textos em formato de diário. Passam bastante tempo entendendo o clima, a cultura e o relevo de onde passamos, e isso tudo por pura curiosidade, pois entender onde se está, durante uma vida nômade é quase inevitável, já que as diferenças destes aspectos se tornam gigantes no dia dia e no decorrer das mudanças.

 

Plano relato

Como forma de organização e de manutenção da rotina, aqui em “casa” utilizamos o plano/relato que aprendemos no Tiê como uma ferramenta educacional. O objetivo do plano é organizar e planejar o dia, de forma a ser colocado ali todas as obrigações e atividades que cada um pretende realizar no decorrer do tempo.

Já com o relato o objetivo é relatar aquilo que conseguiu exercer do que foi planejado, além de praticar a escrita e a narrativa em primeira pessoa.

Procuramos deixar que elas escolham os horários das aulas de acordo com as agendas dos professores e procuramos dar preferência aos horários da manhã, que é quando nos dedicamos integralmente aos nossos trabalhos e reuniões pré agendadas. Vale lembrar que prezamos pelo tempo livre e acreditamos que com liberdade, a criança se desenvolve com autonomia na aprendizagem.

Os prós e os contras

Falando dos prós e contras, e acho que a ideia aqui não é passar uma vida de céu de brigadeiro ou do famoso mar de rosas, estamos aqui contando a nossa própria experiência e a forma com que nos organizamos, mas com certeza absoluta nada é perfeito e nem tudo são flores.

Tivemos que bater muita cabeça e, nesta de nadar contra a correnteza, nossos filhos e nós também sofremos com as incertezas e inseguranças do caminho.

Nossos filhos sentem muita falta de outras crianças e do convívio em grupo, isto é o que temos de sempre estar pesando para que o bem estar prevaleça. A solidão neste estilo de vida se faz presente quase sempre.

Também neste estilo, os pais precisam estar altamente presentes, e demandam demais de nós, de forma que os prejuízos nas crianças sempre aparecem quando não temos disponibilidade emocional, ou seja sempre quando estamos mais ansiosos ou preocupados, nossa disponibilidade é pouca e eles sentem isso o tempo todo, afinal dependem de nós para o incentivo e impulso das descobertas.

Por aqui tem sido um desafio recorrente lidar com o tédio, a sociedade não é habituada mais a sentir tédio, e então, bem como a maioria das pessoas, a tendência é recorrer aos eletrônicos. Desta forma, estipulamos horários para jogos e seriados e esta é uma regra que tem de ser refeita e relembrada quase que diariamente, além disso temos tido muitas conversas sobre o tédio e o ócio, o quanto é normal sentir que não sem tem nada para fazer e o quanto estes momentos podem ser transformados em algo produtivo e reflexivo. ou o quanto os momentos de tédio podem ser respeitados como momentos de fazer nada e está tudo bem.

Enfim, deste assunto

Se eu tivesse um conselho para dar para quem está questionando as alternativas educacionais dos filhos é: Autoconhecimento e observação.

Autoconhecimento para que você entenda suas emoções quanto às suas expectativas e as expectativas familiares e sociais na educação dos filhos e observação pois é através do olhar ativo que você entenderá se os seus filhos estão bem e se as escolhas estão caminhando no lugar correto.

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escute o We Go

We Go Rompendo Barreiras é um projeto de experiências compartilhadas a partir da vivência de uma família nômade, que vendeu tudo e saiu viajando pelo Brasil.

A jornada seguiu inicialmente sem muito planejamento. E foi com a cara e a coragem que resolveram viajar trabalhando em lugares diferentes. Passam a maior parte do tempo trabalhando, estudando e se desenvolvendo intelectualmente.